Porque eu sangro

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Ando nuns dias sensíveis e não tem nada a ver com TPM. Primeiro aprovaram pra que não possamos nem recomendar chá de canela para as amigas quando engravidam de uns pulhas que, como diriam policiais que entrevistei, fogem em desabalada carreira. Depois uma enxorrada de canalha achando a piada da semana escrever barbaridades pedófilas contra a participante do MasterChef Junior que mal e mal tem 12 anos mas… Salvem os trabalhos de base das escolas e famílias! Ela tem carinha de empoderada. Foi quando começaram a chover depoimentos online com a hashtag #primeiroassedio. Sem querer dei o meu, nem tinha marcado como o primeiro trauma, mas depois também indiquei que tinha aderido à campanha do Think Olga. É que só estes dias caiu minha ficha do poder terapêutico da narração de histórias, pois entre um abuso e outro de conhecidas e amigas… Eu reprocessei um episódio que minha memória tinha desentendido estrategicamente, muito pela cultura do estupro e por sermos sempre apontadas como culpadas. Só que também foi abuso. O choque e a sensação de não ter ideia de como agir há anos, na infância, indicaram que foi muito menos leve do que conseguia lembrar e contar. Mas fui repreendida. E aquilo borrou minha memória como mais leve do que realmente foi. Conhecidos pouco mais velho também abusam. E por mistérios emocionais, não mudamos a chavinha pra bravas ou chateadas pelo entendimento retardatário. Também os olhei como vítimas, pois há… o que? Uma geração talvez estejamos repensando como nos colocar no mundo. Até então só recebemos educação enviesada machista. E aqui me solidarizo quando reclamam que as mães tornam os meninos os machos alpha: foi o que elas receberam. Pouquíssimas tiveram o lampejo de reverter a lógica opressora patriarcal. Foi uma virada interna. Resignificar: não foi levezinho como recordava e contava. Qual o lugar daquele mal estar antigo e amargo? A sensação de não saber o que fazer? Tudo isso reentendi com as histórias do #primeiroassedio. Já tinha estudado pela pedagogia Waldorf e Associação Viva e Deixe Viver o quanto as histórias ensinam. Mas pela primeira vez fui terapeutizada por uma. E neste processo forte de reorganizar o caos interno, leio de uma presa fazer o parto sozinha numa solitária na Intenet. Caio num desencanto com a humanidade, mas recebo uma proposta de renová-la. Sou acolhida quando tremo numa ameaça. Meu filho literário nasce. A cultura do estupro, que nunca foi pauta, está na mídia, na Internet, nas famílias, nas salas de aula. Temos campanha permanente para arrecadar modess para as presas. Não pedi a Deus, mas ganhei os parceiros que sempre precisei para os projetos saírem do limbo. Podemos nos reinventar para além do que determinam os genes, a família, a vizinhança. Basta um pontapezinho inicial… E a escola é onde ele mais pode acontecer… Aguardem cenas dos próximos capítulos no blog Uma Jornalista em Sala de Aula!

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Felicidade Clandestina

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felicidadeclandestinaSou daquelas que me apaixonei mais por Clarice Linspector estudando que lendo. Claro, fomos meio obrigadas precocemente na iniciação à literatura clássica, sem preliminar nem vaselina! E olhem que fui rata de biblioteca. Mas partindo das revistas e gibis, não conseguiria passar por suas obras inteira, assim como as do Machado de Assis, sem sangrar. Hoje depois de trabalhar em biblioteca e vendo o quanto os jovens são digitalizados pós sair das fraldas, acho que ela é como Machado de Assis: precisamos vir primeiro com contos, frases, apólogos, encenações curtas… Que o despertar pra literatura profunda tem que ser sutil… Pois bem, minha aclimatação entre nossos escritores mais densos foi arredio e retardatário. Logo, não lembro se li parte da obra dela ou fui devorando trechos aqui e ali, entre colegas literatas que volta e meia destacam partes do que ela produziu. Mas foi um divisor de águas ler – ou quase, já a biografiona dela é um livro que precisaria de muitas renovações, luxo que a biblioteca pela qual passei não dava aos funcionários, sei lá, tínhamos que dar o exemplo. Passei pela maior parte dela. Me coloquei no lugar de muitas dores, que quem escreve quase sempre dá um chega pra lá a punho numa melancolia insistente. Mas nos últimos dias vivi muito essa felicidade clandestina, cismando com o filho que não veio e a despeito de todas as condições inadequadas de temperatura e pressão, teimar em continuar sorrindo internamente. Simplificando horrores, uma anjinha e um diabinho se pegavam no tapa em mim, ainda que não tivesse ideia do que fazer com um pequeno precisando de assistência trabalhando em três lugares, seguia feliz. As pessoas te pedem para não pirar com possibilidades, mas te derrubam no colo revisões relacionadas à maternidade, cortam seu barato quando quer se realizar com os filhos de terceiros ou lembram o quando se dá bem com elas, que desperdício não ter, em épocas que estamos neutras com relação ao tema. O mundo é organizado para as mães: as férias decididas com elas na frente, licenças prêmio, filas e assentos dão preferência às que amamentam ou tentam carregá-las vida afora. Não se pensa muito como acolher quem uma das blogueiras do Mothern descreveu com maestria: “não teve criança e se sente como quem perdeu uma parte do filme”. E esse mal estar duma natureza não sei qual, de início não sei quando e sobes e desces não sei como, é sempre deixado falando sozinho diante das raladas agudas de quem não dorme, não namora, não consegue trabalhar. Não se trata de comparar ou diminuir mal estares, já que isso é impossível, todos são meio que legítimos. Mas num sistemão que trabalha para enlouquecer a todos – os que tem, os que não, os que ficam com cachorros, os que adotam gatos ou sobrinhos – faz se pulsante acolher a dor de todos, pois temos participação indireta nessa piração coletiva. O desplante é que o grosso daqueles que puseram fermento neste mal estar de semi nova não ter filho, finge demência quando precisamos de colo. Mas voltemos à felicidade clandestina, a parte mais poética e rebelde de esperar descer a menstruação: existe um pano de fundo consciente de não ter ideia de como conciliar filho, contação de histórias, aulas, formação para professores, pesquisa, planejamento e ensaio, mas arriba de tudo, segue sem se deixar abalar, uma alegriazinha inocente com deixar o corpo ser vencido por um amor arrebatador, acreditar que alimentar alguém com nossa própria matéria prima inicia a revolução do que comemos e por alguém no mundo nos convoca a melhorá-lo urgentemente até que… Como confirma o clima do antigo filme de Kate Winslet Foi Apenas Um Sonho. Seguimos sem o menor espaço para dorezinhas sutis e mal estares quase líricos. O trem apita e se não nos ajustarmos a toque de caixa, nos atropelará como o da Supervia no Rio, priorizando o horário de pico ao ser humano na linha. Uma cantora aguda em seus versos me cai no colo providencialmente: “o mundo está ao contrário e ninguém reparou”… Salve Cássia Eller!

Estreia no Espaço Brincar do Sesc São Caetano no mês da mulher

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IMG_0843Há três meses a produção do Sesc São Caetano gostou da Princesa que Não Tinha Reino, de Úrsula Jones e Saraha Gibb, que apaixonei à primeira vista lá na biblioteca Padre Moureau do Colégio Santa Maria, pq trabalha com 90 dias de antecedência e a ideia era celebrar o mês da mulher. Militante do Movimento das Mulheres do Heliópolis há…o que? Dois anos? Inclui também Donzela sem Mãos e Mulher Esqueleto, do livro Mulheres que Correm com os Lobos, de Clarice Pínkola Estes e Horrorosas Maravilhosas, de Elias José. Assim contemplaríamos muitas heroínas possíveis. E foi neste espaço Brincar, que no começo do ano me encantei. Desde as contações no Hospital Cruz Azul, penso “poxa tanta brinquedoteca sem intermediação…se o brincar tem esse peso todo na infância da criançadas, devíamos ter mais brinquedistas”. E deu para explorar as voltadas aos mais jovens e presentear as mães IMG_0741com Mulher Esqueleto. Ideias de figurino, direção e divulgação da Maria Sol Produções Culturais. E um grande dia das contadoras pra todas educadoras, artistas, mães, tias, avós, madrinhas, amigas, primas, parceiras e que ainda não precisemos um dia pra lembrar que o machismo precisa ir pro brejo! Dia 25/3, quarta contarei na Praça Serraria, av. Rotary 159, em Diadema ao meio dia e 27/3, sexta às 13h30 na Praça da Moça, coladinha ao centro cultural de Diadema, rua Graciosa, 300. Bora?

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De como a criação não nos define e nem nos determinará

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pai2Escutei há pouco tempo que “escapei por um triz de ser sapatão” e resolvi que talvez esse relato pudesse por um fórceps numas mentes meio estreitadas vida afora que cismam que isso tem a ver com criação. Quando nasci, meu pai ainda nem sabia qual era o sexo, mas já ganhei uma camisetazinha do Corínthians – ele andou bem aborrescido por não ter encontrado esse mimo um tempo atrás, mas também nunca me levou ao estádio. Fui desvirginar de arquibancada no Pacaembu dois anos atrás com o pessoal do trabalho e saí com a sensação que tem muito em comum com trilha selvagem além da conta, pois na hora a gente promete não repetir a dose devido ao desconforto, perigo, aflição e na saída já está querendo saber:

– Quando tem Timão contra qualquer pra voltar?

Meus dentes de leite amoleciam, mas não caíam, tinha que ir ao dentista, eles costumavam ter raízes grandes. Até que um dia meu pai resolveu se promover a boticão e arrancar um meu com alicate. Em compensação, quando minha mãe punha vestidinho bolo de noiva ou lacinho na cabeça com duréx, pois não tinha cabelo, ele ia lá e tirava, talvez numa atitude instintiva de quem desconfia que aquilo impedirá brincadeiras mais livres.

Nas minhas quedas ouvia “se chorar, apanha” e estranha criança que os pais iam perguntar se tinha machucado. Apesar disso, nunca teve deixa pra adestrar “fecha a perna, encolhe a barriga, empina o bumbum” como vi colegas reclamando mais tarde, tentando desprogramar na yoga ou pilates. Quando pequena, ele deu um Autorama para ele que foi o delírio entre os primos, literalmente meus irmãos, pois nunca fui de brincar de carrinho, só passei a infância vendo as brigas e cada um atirar o carrinho na parede de raiva ao perder. Somos passionais exaltados.

Ele ensinou a lidar com perdas abruptamente quando derrubei uma bonequinha pela janela e ele falou a caminho de algum parente “não dá pra parar e procurar”. Catequizou marxismo na prática quando num batizado viu uma menina pobre olhar minha boneca enquanto circulava na igreja, deu o brinquedo para ela, na volta tomei, ele restitui a posse à cristãzinha vulnerável e só tem foto desse evento meio familiar comigo de bico chorão. Mas ele dava educação sexual com farelinho de pão em mesa de café da manhã, acho que na adolescência, quero dizer, prolongamento da infância e via filme adulto comigo, que o esperava chegar taaarde do trabalho e estranhava aquelas baixarias de longa de guerra, duvidando:

– Eles inventaram isso aí para o filme né pai? Soldados não devem fazer isso…

Acho que meu pai purgou o quartel da fronteira em Corumbá comigo. pois também zerava meu cabelo criança, eu me escondia atrás do sofá da minha avó quando chegavam as tias e sabia que elas reclamariam, ao que ele justificava muito praticamente “não deixa desembaraçar”. Levei uns anos e a filha dum namorado para compreender na prática e rir disso meio semi nova.

Ele via que desenhava, só que histórias em quadrinhos, me levou para um curso de desenho técnico, peguei tanto trauma de régua e esquadro que não cheguei mais perto dos lápis, giz, canetinha e papel. Também levei um bocado de tempo pra me ligar que era um palpite quase certeiro, já que arrancava das revistas e colecionava páginas de plantas arquitetônicas.

Dizia amém para quando minha mãe me mandava ficar longe do fogão criança, por causa do fogo e hoje tira sarro que não pode experimentar minhas experiências naturebas pois “não sabe o que Anvisa diz a respeito do café de milho”. Ficava na rede comigo e apanhava quando batíamos na parede ou teto de tanto “ir mais alto”, pedia para não pisar na pedra de Itanhaém, eu teimava, quebrava dente e também batia nele. Numa época em que engolia tudo o que era pequeno e cismava de brincar, fomos dúzias de vezes tirar raio X, até que ele entregou para Deus “ah daqui a pouco devolve para natureza. Parece uma ema enfia na boca tudo”.

Me peguei algumas vezes com ele me levando para ver moto, carro antigo e eu lá com cara de paisagem sem saber o que dizer, mas as motocas me apaixonam até hoje. No casamento correu para me deixar no altar, talvez um pouco de frio e outro tanto de “vamos acabar logo com essa paiaçada”, jurou não ir aos meus dois bailes de formatura das faculdades, mas aos 45 do segundo tempo foi e ainda dançou.

Corria atrás de mim nas mesas de almoço ou jantar, para bater pois nunca queria parar de ler, desenhar ou  brincar para comer e era uma das campeãs olímpicas de greve de fome infantil. Uns significativos anos depois, a mesma filha de ex, um trabalhão daquele para cozinhar e a carinha de entojo dela me fizeram ter uma vaga compreensão desse desaforo culinário familiar.

O tratamento padrão dele é “sua besta”. Mas achei engraçadinho ele cortar minha mãe que na atribuição das atuais aulas de concurso está quase me fazendo prometer com a mão na bíblia que não exonerarei, porém ouvi dele “não, pode até ir atrás de outra coisa, mas vê lá primeiro se não será melhor que o anterior”. Ele quer dar carona até hoje em situações que nem preciso mais, mas sabe aposentado procurando serventia? Adolescente era meio Jarbas, levava não exatamente onde queria conhecer, mas onde era parte das rotas que se arriscava e as amigas até achavam graça dele ir, voltar e fazer via sacra com elas depois.

Pode ser que depois vá recalibrar essa percepção das grandes lições, mas atualmente acho que ele ouvir Beth Carvalho, ser sindicalista, ver documentário e ler livro indígena, me defender esse universo, observar e catalogar pássaros e ser um aventureiro teórico são as influência pelas quais sou mais grata. Tem essas esquizitices estilo eu voltar duma viagem de 20 dias na Zoropa e claro, ser o único a perguntar que avisão voei. Se absorve duma tal forma numa revista técnica estilo Aerto Magazine, Globo Rural e Carros não sei das quantas até que de repente começa a ler algum artigo técnico em voz alta e pede palpite impossível de dar. Suas caronas são tradicionalmente as atrasa a torcida do Flamengo, mas às vezes ele acorda, cai com a cabeça e cisma de me levar às quatro da madruga por achar que eu e o namorado perderemos a viagem ” cai da cama” no feriado. Lembro dumas machistices estilo chiar “não tem nada mais curto não”? Quando ainda usava mni saia e me ouvia “posso procurar que devo encontrar”. Ou ter essas ciumeiras meio autistas quando mãe apresentava namorado e ele fazia de conta que era um novo pufe na sala. Teve também um tratamento de choque pra me fazer largar de chupar dedo, de pimenta a pó de fazer criança largar o dedo, fita crepe e aparelho medievel que rasgava quando punha o dedo na boca dormindo e acordando com gosto de ferro na boca fui desencanado no tranco.

Relembro isso tudo por ainda não ter certeza se é machistice da amiga cismar que mais um pouco e eu descambava a gostar de mulher. Mas também por reforçar a conficção que o bicho pode ser criado como for, mas essa orientação não se altera nem com pai pé no peito.

Não nos afastemos muito… Vamos de mãos dadas!

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Cena Hoje Recebi Flores

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Sempre fica um pouco de perfume nas mãos de quem oferece flores

Começo novo ano conforme manda o figurino: meditando, me alongando e adiantando promessa de ano novo: dançando. Nenhum som muito apresentável, é verdade. Mas a saudade de expressão corporal era tanta… Que minha atividade física restaurativa logo cedo era uma bênção de virada de ano, fosse lá em que ritmo acontecesse. Piadas à parte, a passagem de ano acontece fazendo o que imprime à vida sentido: militando. Colocando dores cada vez mais leves na árvore e assoprando o machucado de quem tem mais ralados que eu: o machucado feminino comunitário. De uma região de chefes de família. De mães solteiras. Das que acordam às cinco e “vão para a guerra”, fazem a via sacra creche-trabalho-casa-militância-tripla jornada doméstica. As irmãs do bairro. Lembrando a “versão vintage” sem muito alarde. Me rendendo ao parabéns coletivo na quadra da escola municipal em que nos reunimos mensalmente, com filhos, preparando mesa de recepção, acolhendo homens abertos às dores de suas parceiras, recebendo quem se disponha a passar band aid onde outros ralaram. Vendo o trabalho de meses reconhecido no mural do que criamos a muitas mãos no ano. Vivenciando essa necessidade de pertencimento. Adiando o voo para além desta região por uma espécie de “Ivan Lins feelings aqui é o meu país”… Num entendimento mútuo que violências psicológicas e emocionais são meio que tapas sorrateiros. Experienciando a descoberta dos nossos direitos. Gerando compaixão que a falta do mínimo de amor próprio feminino impede até de tomar as dores dos filhos em detrimento de deixar o marido/ namorado agressor. Acolhendo quem se fere, estimulando a denunciar. E escrevendo para estancar a indignação. Dando um chega para lá nos medos. Rezando cedo para a Liga da Justiça e recebendo de bom grado “quem estiver desocupado e puder me atender, está valendo”. E entregando ao divino a confiança do amparo de quem escolhe o lado das oprimidas. Heliópolis, essa causa me move. Enterrei meu coração à margem do Ribeirão dos Meninos. E daqui não saio até darmos autonomia à última das agredidas. Meu coração é de vocês!

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“Competitiva é o raio que o parta!

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Uma manhã “engordiet”

Machismo não tira férias

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feminismo2A Itália é muito brasileira. Até no que não precisava.  Em meu primeiro dia em Roma tive uma amiga brincando de guia turística comigo. No almoço, num restaurante em que testei e aprovei a massa italiana, igualzinho aqui a TV estava lá ligada, embora com aquela bebedeira de aromas, gostos e cores fosse totalmente descenecessária. E lá fiquei chocada de achar que a mídia italiana trata a mulherada como propulsora de venda e objeto de consumo ainda mais que aqui. Enchi os ovários de tanto ver buzanfa na tela de plasma. Mas aquela avalanche de estátuas, ruínas e simpatia acabou me distraindo de novo.

O que parecia ser o dono do hostel sempre brincava comigo “braziliana de Brasil” (ao menos era o que entendia). Apesar da minha determinação para não dar brecha para gringo por medo de roubarem o passaporte numa distraída e eu terminar a “pochete europeia” refém de cafetão, isso não conseguiu ir até o fim na Itália: eles são brazucas demais! Violam regras, falam alto, enfim… Lá para o que…? 3o ou 4o dia vi o capacete dele e brinquei que faríamos um tour de moto. Em espanhol: depois que ouvi o idioma deles não consegui mais voltar ao inglês. Ele comentou que tinha parceiro para eu fazer e no 5o dia calculei a sobra do cartão e do porta dólares, pedi para ligar nos moto guias. O problema é que começariam na hora do almoço, dura 4 horas e meu embarque era no fim da tarde, o aeroporto é lá do outro lado, não daria tempo. Aí ele disse que faria comigo, mais barato, desenhamos um roteirinho do queque não tinha conhecido, falei que trabalhava com histórias e queria conhecer mais isso, ele também tinha sido guia, enfim, Achei super brasileiro prestar o serviço que o fornecedor não daria conta.

Fomos numas partes bonitas de Roma, que nem todo turista vai, umas igrejas não podiam faltam que eles são irritantemente católicos, uma parte que dava para ver como a cidade já teve um nível mais baixo… Lá para as tantas ouvi:

– Qualquer coisa somos amigos.

Saquei que estava com medo de encontrarmos a mulher, amigos ou familiares dela: a aliança já tinha dado bandeira na mão. Mas não estava paquerando ou fazendo amigos, queria ouvir essas histórias bacanas de fundação, mudança, adaptação local. E numa das vielas que só moto chega o cara enfiou a mão na minha perna. Como cantou Oswaldo Montenegro “quantos defeitos sanados com o tempo/ eram o melhor que havia em você”. Era tão boa de rodar a baiana, ser irônica nessas horas. Mas fiquei meio Machado banana conforme fiquei semi nova. O espanhol, a expressão corporal, tudo deu WO da minha cabeça e eu lá meio em estado de choque e meio fula da vida, mas sem reação. Terminei o tour meio com cara de paisagem, fui almoçar e ele ainda desceu para comer comigo. Quando cheguei dois italianos se mostraram prestativos num nível OK e zanzando com minha amiga ouvi as clássicas assobiadas. Mas podiam pegar mais leve no machismo e não me fazer esquecer que estava em viagem. Ah. Esqueci que machismo não tira férias.

Ah, o palaque que tenho na garganta

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feminismoVolta e meia me proponho a não panfletar nos lugares em que trabalho. Que serei uma samambaia ali, só captando luz e fazendo fotossíntese. Mas ah, esse passado de filha de sindicalista, sobrinha de petista da fase xiita e militância em movimento feminista de bairro… Como evitar que a pólvora exploda ao ouvir no trabalho:
– Vocês vêem como as mulheres estão se vestindo onze da noite nas conduções públicas…?
Antes de escutar um provável: “estão pedindo”, não aguentei e subi no palanque de tenho na garganta, às vezes o evito, mas menos do que deveria. Lá fui eu tentar desenhar para um homem que elas deveriam vestir (ou não) o que quisessem:
– Escuta, você tem filha? Mulher? Sobrinha? Mãe?
Filha tinha. Bingo!
– É adolescente aposto.
Era.
Nisso o trabalho já tinha ido pras cucuias. Sorte que a “sargento” tinha ido circular no “quartel”.
– Cuidado! Esse discurso é um passo pra “estava pedindo”, “fez por merecer”, “abusou da sorte”. As mulheres têm que ter o direito a se vestir como querem, quando estiverem a fim e circular sem morrer de medo de homem sem senso de noção. Vocês são bicho? Como assim, não aguentam mulher “fazendo exposição da sua figura”? Como é que aguentamos vocês sem camisa no calor? Somos tão diferentes?
E “blá blá blá Whiskas Sachê”. No final ele lembrou de mim num treinamento inspirado na Copa em pleno sabadão de jogo:
– Ah quando estávamos em treinamento, você apontou pro bolão no campo e disse: “não é de futebol, é de Pilates”. Pensei: “essa daí”…
– E não era? Vocês lá jogam pelada com bioball?
– Não.
– Fui estúpida?
– Não.
Como diria uma colega de infância da sociologia: “se adaptar à uma sociedade doente não é digno”. Depois desta tarde, quando reencontrava este colega a caminho do cartão de ponto, ele brincava: “vamos ‘cara da riqueza’! Está na hora”! Mas era inviável às 7 da madruga ser rápida.
Em tempo: assinaram minha carta de alforria.
Tem coisa que não dá para ouvir e fazer cara de paisagem.